HISTÓRIAS DE NATALMUNDO HUMANO

O Pequeno Grande Gesto

Infância, escolha, amizade e generosidade.

Imagem oficial da história O Pequeno Grande Gesto

Status: [APROVADO] — Versão corrigida

Lucas sabia exatamente o que queria ganhar no Natal.

Não precisava pensar.

Não precisava olhar catálogo.

Não precisava fazer lista.

Também não precisava ouvir a mãe perguntar pela décima vez:

— Tem certeza?

— Tenho.

Era uma bicicleta.

Azul.

Com marchas.

Freio a disco.

E uma faixa laranja no quadro.

Lucas sabia até o nome do modelo.

Havia meses que ele passava em frente à loja de bicicletas na volta da escola só para olhar a vitrine.

Às vezes entrava.

— Posso ver aquela?

O vendedor já sabia qual.

— Ainda não vendeu, Lucas.

— Eu só estou olhando.

— Você olhou ontem.

— Hoje a luz está diferente.

O vendedor ria.

Lucas também.

Mas ele realmente queria aquela bicicleta.

Seu pai já tinha avisado:

— Não promete nada para você mesmo, hein?

— Eu sei.

— É cara.

— Eu sei.

— Talvez não dê.

— Eu sei.

Lucas sabia de tudo isso.

Mesmo assim, toda vez que imaginava a manhã de Natal, a bicicleta estava lá.

Na escola, faltavam poucos dias para as férias.

A professora pediu que cada aluno levasse alguma coisa para a confraternização da turma.

Lucas levou refrigerante.

Bia levou bolo.

Henrique levou salgadinhos.

E Pedro não levou nada.

Ninguém comentou.

Pedro tinha entrado na escola havia poucos meses.

Era quieto.

Não era tímido exatamente.

Só parecia preferir ouvir antes de falar.

Sentava duas carteiras atrás de Lucas e desenhava carros, ônibus, bicicletas e qualquer coisa que tivesse rodas.

Na saída daquele dia, começou a chover.

As crianças foram embora aos poucos.

Lucas ficou esperando a mãe buscá-lo.

Pedro também continuava lá.

— Sua mãe está vindo? — perguntou Lucas.

— Meu irmão.

— De carro?

Pedro balançou a cabeça.

— A pé.

Lucas olhou para a chuva.

— Vai demorar.

— É.

Os dois ficaram sentados perto da entrada.

Pedro tirou um caderno da mochila e começou a desenhar.

Lucas reconheceu imediatamente.

— Essa bicicleta existe.

Pedro cobriu o desenho.

— Não.

— Existe, sim.

— Eu inventei.

— Você copiou a suspensão daquela da loja da avenida.

Pedro olhou para ele.

— Você conhece?

— Conheço todas.

Aquilo foi suficiente.

Durante os vinte minutos seguintes, os dois discutiram bicicletas como se estivessem resolvendo um assunto de enorme importância.

Qual pneu era melhor.

Quantas marchas realmente faziam diferença.

Se adesivo deixava bicicleta mais rápida.

— Claro que deixa — disse Pedro.

— Não deixa.

— Então por que bicicleta de corrida tem adesivo?

Lucas não tinha uma resposta pronta para aquilo.

Quando o irmão de Pedro chegou, a chuva já tinha diminuído.

Ele parecia ter uns dezessete anos.

Estava encharcado.

— Bora?

Pedro guardou o caderno.

— Até amanhã.

Lucas viu os dois saírem andando pela calçada.

Foi quando percebeu que Pedro estava carregando um capacete.

— Pedro!

Ele se virou.

— Você veio de bicicleta?

— Meu irmão veio.

O irmão apontou para uma bicicleta velha presa do outro lado do portão.

Pedro colocou o capacete e sentou-se num pequeno suporte improvisado sobre a roda traseira.

Os dois foram embora.

No dia seguinte, Lucas perguntou:

— Você não tem bicicleta?

— Tinha.

— O que aconteceu?

— Ficou pequena.

— E aí?

— E aí que eu cresci.

Lucas esperou o resto da resposta.

Não veio.

— E vocês não compraram outra?

Pedro deu de ombros.

— Agora não dá.

Depois abriu o caderno.

— Olha essa.

Era outra bicicleta desenhada.

Vermelha.

— Essa ficou boa — disse Lucas.

— Essa é a minha.

— Você acabou de falar que não tem bicicleta.

— Essa é a que eu vou ter.

Lucas sorriu.

— Quando?

Pedro deu outro daqueles ombros.

— Algum dia.

Naquela tarde, Lucas entrou novamente na loja.

A bicicleta azul continuava lá.

Mas havia alguma coisa diferente na vitrine.

Uma placa.

RESERVADA.

Lucas sentiu o estômago apertar.

Entrou correndo.

— Vendeu?

O vendedor olhou para ele.

— Quase.

— Como assim quase?

— Alguém reservou.

— Quem?

— Não posso falar.

— Mas ela era minha!

O vendedor levantou uma sobrancelha.

— Era?

Lucas percebeu o que tinha acabado de dizer.

— Quer dizer... eu ia pedir.

— Ah.

— Para o Natal.

— Então acho melhor conversar com seus pais.

Lucas saiu da loja furioso com uma pessoa que nem conhecia.

Chegou em casa.

— Mãe!

— Oi.

— A bicicleta foi reservada.

A mãe ficou alguns segundos sem responder.

Isso foi suficiente.

— Foi você?

— Lucas...

— Foi?

Ela olhou para o pai.

O pai tentou esconder um sorriso.

Lucas entendeu.

— Vocês compraram?

— Ainda não — disse a mãe.

— Mas reservaram?

O pai abriu os braços.

— Talvez.

Lucas pulou nele.

— Eu sabia!

— Calma. Tem uma condição.

Lucas parou.

— Qual?

O pai apontou para a garagem.

— Sua bicicleta antiga.

Encostada na parede estava a bicicleta que Lucas usava havia três anos.

Vermelha.

Sem marchas.

Com alguns riscos no quadro.

Mas funcionando perfeitamente.

— O que tem ela?

— Se a nova vier, precisamos decidir o que fazer com essa.

— Vende.

— Podemos vender.

Lucas olhou para ela.

O pai continuou:

— Ou podemos doar.

— Doar?

— Está pequena para você. Mas está boa.

Lucas imediatamente pensou em Pedro.

Imediatamente.

E imediatamente tentou pensar em outra coisa.

— Quanto dá para vender?

— Não sei.

— Bastante?

— Não muito.

Lucas passou a mão no guidão.

A bicicleta nova custava caro.

Talvez vender a antiga ajudasse.

Mesmo que fosse pouco.

— Vamos vender — disse ele.

O pai apenas respondeu:

— Tudo bem.

Naquela noite, Lucas foi até a garagem buscar uma bola.

Passou pela bicicleta vermelha.

Parou.

Subiu nela.

Seus joelhos estavam altos demais.

Pedalou uma volta curta pela garagem.

Lembrou do dia em que tinha aprendido a andar sem rodinhas.

Da primeira queda.

Do primeiro passeio com o pai.

De quando tentou descer uma rua sem usar as mãos e quase entrou no jardim da vizinha.

Era uma boa bicicleta.

Só não era mais uma boa bicicleta para ele.

Encostou-a novamente na parede.

Subiu para o quarto.

Tentou dormir.

Não conseguiu.

Desceu.

Olhou para a bicicleta outra vez.

Subiu.

Desceu.

Foi beber água.

Voltou.

— Você pretende dormir na garagem? — perguntou o pai atrás dele.

Lucas levou um susto.

— Não.

O pai olhou para a bicicleta.

Depois para o filho.

— Está difícil?

— O quê?

— Decidir.

Lucas chutou de leve o pneu.

— Se eu doar, vocês ainda vão comprar a outra?

— Uma coisa não tem nada a ver com a outra.

— Então por que você perguntou?

O pai pensou.

— Porque a bicicleta é sua, filho. Você é quem tem que decidir o que quer fazer com ela.

E voltou para dentro.

Lucas ficou sozinho.

No último dia de aula, Pedro abriu seu armário para guardar alguns livros.

Havia uma chave lá dentro.

Com uma fita vermelha.

Ele pegou.

— O que é isso?

Lucas, algumas carteiras adiante, continuou guardando seus materiais.

— Sei lá.

Pedro levantou a chave.

— Lucas.

— O quê?

— O que é isso?

— Parece uma chave.

— Eu sei que é uma chave.

— Então por que perguntou?

Pedro saiu da sala.

Lucas continuou arrumando a mochila.

Alguns segundos depois, ouviu:

— LUCAS!

Ele fechou os olhos.

Foi até a porta.

No pátio, perto do bicicletário, estava a bicicleta vermelha.

Lavada.

Pneus cheios.

Corrente lubrificada.

No guidão, apenas um pequeno laço.

Pedro ficou olhando para ela.

Depois para Lucas.

— É sua.

— Era.

— Eu não posso.

— Pode.

— Minha mãe não vai deixar.

— Então fala que foi barata.

— Quanto?

Lucas pensou.

— Um real.

Pedro encarou o amigo.

— Você é muito ruim mentindo.

— Cinquenta centavos.

Pedro começou a rir.

Depois parou.

Passou a mão pelo guidão.

— Por quê?

Lucas deu de ombros.

— Ficou pequena.

— Não foi isso que eu perguntei.

Lucas não respondeu.

Pedro também não.

Não havia ninguém fazendo discurso.

Nenhum professor reuniu a turma.

Ninguém bateu palmas.

Ninguém tirou fotografia.

Pedro simplesmente montou na bicicleta.

Pedalou alguns metros.

Voltou.

— Ela puxa um pouco para a esquerda.

Lucas arregalou os olhos.

— Não puxa.

Pedro pedalou novamente.

— Puxa.

— Você que está torto.

— Quer testar?

Lucas montou.

Deu uma volta.

Voltou.

— Puxa um pouquinho.

— Eu falei.

Os dois começaram a rir.

Na manhã de Natal, Lucas encontrou a bicicleta azul perto da árvore.

Exatamente aquela.

Faixa laranja.

Marchas.

Freio a disco.

Ficou alguns segundos sem acreditar.

Depois passou quase uma hora andando com ela pela rua.

Quando voltou, havia uma mensagem no celular da mãe.

Era um vídeo.

Pedro pedalava a bicicleta vermelha.

O irmão corria atrás dele.

No final do vídeo, Pedro gritou:

— NÃO PUXA MAIS PRA ESQUERDA!

Lucas assistiu de novo.

E mais uma vez.

A mãe, atrás dele, perguntou:

— Gostou da bicicleta nova?

Lucas olhou para a azul.

Depois para o vídeo.

— Muito.

— Qual das duas?

Ele pensou.

— Das duas.

E saiu novamente para pedalar.