HISTÓRIAS DE NATALMUNDO HUMANO

A Luz que Nunca se Apaga

Memória, família, espera e tradição.

Imagem oficial da história A Luz que Nunca se Apaga

Status: [PROPOSTA — VERSÃO 1.0]

Todo dezembro, assim que escurecia, havia uma pequena luz acesa na janela da casa de Helena.

Não piscava.

Não mudava de cor.

Não fazia desenhos na parede.

Era apenas uma pequena lâmpada amarela dentro de uma luminária antiga.

E Miguel não entendia por que ela precisava estar ali.

Na casa do outro lado da rua, havia renas iluminadas no jardim.

Duas casas adiante, um Papai Noel enorme subia e descia por uma escada.

Na esquina, uma família tinha coberto a fachada inteira com luzes que piscavam acompanhando música.

A casa de Miguel também tinha decoração.

Uma guirlanda na porta, a árvore na sala, algumas luzes no jardim.

Mas sua mãe fazia questão daquela pequena luminária na janela.

Todos os anos.

No mesmo lugar.

— Mãe, a gente podia colocar aquelas luzes que parecem cair — sugeriu Miguel.

— Podemos.

— Aqui na janela.

— Pode ser.

— Então tira essa.

Helena olhou para a luminária.

— Essa fica.

— Mas ela nem pisca.

— Ainda bem.

Miguel franziu a testa.

— Por quê?

— Porque se piscasse, às vezes estaria apagada.

Aquilo pareceu uma resposta tão sem sentido que Miguel desistiu.

Na semana seguinte, sua avó veio passar a tarde com eles.

Miguel estava ajudando a tirar algumas caixas de Natal do armário quando encontrou uma fotografia antiga.

Na foto, havia uma casa que ele reconheceu imediatamente.

Era a casa deles.

Mas parecia diferente.

O muro era mais baixo. A árvore do jardim era pequena. O portão tinha outra cor.

Na janela, havia um pontinho amarelo.

Miguel aproximou a fotografia do rosto.

— Vó.

— Hum?

— Essa luz já estava aqui?

A avó olhou.

Demorou um pouco para responder.

— Estava.

— É a mesma?

— A luminária é.

Miguel olhou novamente para a fotografia.

— Por que vocês colocavam isso?

A avó sentou-se no sofá.

— Pergunta para sua mãe.

Pronto.

Agora ele precisava saber.

Encontrou Helena na cozinha.

Colocou a fotografia sobre a mesa.

— Por que essa luz fica na janela?

A mãe continuou mexendo alguma coisa numa panela.

— Porque sempre ficou.

— Isso não é resposta.

— É uma resposta.

— É uma resposta ruim.

Helena sorriu.

Desligou o fogo.

Pegou a fotografia.

Ficou alguns segundos olhando para ela.

— Essa casa era dos seus avós.

— Eu sei.

— Quando eu era pequena, seu avô viajava muito a trabalho.

Miguel puxou uma cadeira.

Helena continuou:

— Não existia celular. Às vezes ele ligava de algum telefone no caminho, às vezes não conseguia. E, em dezembro, ele sempre tentava voltar antes do Natal.

— Tentava?

— Nem sempre dava certo.

Miguel olhou para a fotografia.

— E a luz?

— Sua avó começou a deixá-la acesa na janela quando ele estava voltando.

— Pra ele enxergar a casa?

— Seu avô sabia onde morava.

Miguel riu.

— Então pra quê?

Helena pensou um pouco.

— Para ele saber que tinha alguém esperando.

Miguel ficou quieto.

Era uma coisa estranha.

A casa estava sempre no mesmo lugar.

A família também.

A luz não fazia ninguém chegar mais rápido.

Mesmo assim, todos os anos alguém a acendia.

— E depois?

— Depois o vovô parou de viajar tanto. Mas a luz continuou.

— Por quê?

— Acho que ninguém quis ser a primeira pessoa a não acender.

Naquela noite, Miguel observou a mãe colocar a luminária na janela.

Pela primeira vez, ela não pareceu velha.

Nos dias seguintes, ele começou a reparar nela.

Quando saía para brincar, olhava para trás e via o pequeno ponto amarelo.

Quando voltava, lá estava.

Até que, dois dias antes do Natal, o telefone de Helena tocou.

Era o pai de Miguel.

Ele tinha viajado para resolver um problema no trabalho e deveria voltar naquela tarde.

Não voltou.

Uma reunião atrasou.

Depois, o voo foi cancelado.

O próximo só sairia no dia seguinte.

— Mas amanhã é véspera de Natal — disse Miguel.

— Eu sei.

— Ele vai chegar?

— Vai tentar.

Miguel não gostou daquela palavra.

Tentar.

Na manhã seguinte, o pai mandou uma mensagem.

Tinha conseguido outro voo.

À tarde, outra mensagem.

O avião havia pousado, mas o trânsito estava complicado.

A família começou a preparar a ceia.

A avó chegou.

Os tios chegaram.

Os primos chegaram.

O pai de Miguel, não.

Anoiteceu.

Miguel foi até a janela.

A luminária estava apagada.

— Mãe!

Helena apareceu assustada.

— O quê?

— A luz.

— Ah. Eu ainda não acendi.

Ela estava com as mãos ocupadas.

— Acendo daqui a pouco.

Miguel olhou para a luminária.

Depois para a rua.

— Eu acendo.

Helena parou.

— Sabe onde liga?

— Sei.

Ele ligou.

A pequena luz amarela apareceu no vidro.

Nada piscou.

Nada mudou de cor.

Nenhuma música começou.

Era só uma luz.

Miguel ficou olhando para ela.

Algum tempo depois, a família já estava reunida à mesa quando ouviram um carro parar diante da casa.

Miguel correu.

Abriu a porta antes que alguém pudesse dizer para ele esperar.

O pai estava descendo do carro com a mochila no ombro.

— Pai!

Miguel atravessou o jardim.

O pai abriu os braços.

— Achei que não ia dar tempo.

Miguel o abraçou.

Depois olhou para a janela.

A luz continuava acesa.

— Você viu?

— O quê?

Miguel apontou.

O pai olhou para a luminária.

— A luz?

— É.

— Vi.

— De longe?

O pai riu.

— Não tão longe.

Miguel pensou um pouco.

— Mas viu.

— Vi.

Entraram juntos.

Naquela noite, ninguém falou mais sobre a luminária.

Não precisava.

O Natal passou.

Janeiro chegou.

As caixas voltaram para o armário.

A árvore foi desmontada.

A guirlanda saiu da porta.

As luzes do jardim desapareceram.

E a pequena luminária também foi guardada.

Onze meses depois, no primeiro dia em que a família começou a decorar a casa novamente, Helena abriu uma das caixas.

Antes que pudesse procurar qualquer coisa, Miguel apareceu.

— Cadê a luz?

— Qual?

Ele fez uma cara séria.

— Mãe.

Helena tentou não rir.

— Está ali.

Miguel pegou a luminária.

Levou até a janela.

Colocou exatamente no mesmo lugar.

E esperou anoitecer.

Quando o céu ficou escuro, ele a acendeu.

Do outro lado da rua, as renas brilhavam.

Na esquina, centenas de luzes piscavam.

Mais adiante, uma estrela enorme mudava de cor.

Miguel olhou para todas elas.

Depois olhou para aquela pequena luz amarela.

Ela não era a maior.

Não era a mais bonita.

E definitivamente não era a mais moderna.

Mas agora Miguel sabia uma coisa que nenhuma das outras luzes conseguia dizer.

Aqui tem alguém esperando por você.