HISTÓRIAS DE NATALO FANTÁSTICO MUNDO

Dun Dun e a Tempestade

Aventura, cooperação, coragem e inteligência prática.

Imagem oficial da história Dun Dun e a Tempestade

Dun Dun tinha certeza de três coisas.

A primeira: conhecia todos os caminhos da Vila.

A segunda: conseguia chegar a qualquer lugar mais rápido do que quase todo mundo.

A terceira: aquela nuvem não estava ali cinco minutos antes.

Ele parou.

Olhou para o céu.

A nuvem era enorme.

Escura.

E vinha descendo pelas montanhas como se alguém tivesse derramado tinta sobre o céu.

Dun Dun apertou os olhos.

— Isso não estava aí.

— Estava, sim.

Maya passou por ele carregando duas caixas, uma em cada braço.

Dun Dun apontou para o céu.

— Desse tamanho?

Maya olhou.

— Não.

— Então não estava.

— Estava menor.

— Nuvem menor é outra nuvem.

Maya continuou andando.

— Claro.

Dun Dun correu atrás dela.

— É verdade.

— Claro.

— Você está falando “claro” daquele jeito.

— Que jeito?

— Do jeito que significa “Dun Dun está falando bobagem”.

Maya sorriu.

— Claro.

Um trovão interrompeu a conversa.

Os dois olharam novamente para as montanhas.

Dessa vez, Maya não sorriu.

— É melhor a gente voltar.

Dun Dun concordou.

Isso já dizia bastante.

Os primeiros flocos começaram a cair antes de eles chegarem ao caminho principal.

Nada preocupante.

A Vila estava acostumada à neve.

Dun Dun esticou a língua e tentou pegar um floco.

Errou.

Tentou de novo.

— Você sabe que tem neve no chão inteiro, né? — perguntou Maya.

— Não é a mesma coisa.

— Por quê?

— Essa ainda não caiu.

Maya resolveu não perguntar.

Então veio o vento.

Não aos poucos.

De uma vez.

WHOOSH!

Dun Dun quase perdeu o gorro.

Maya segurou uma das caixas com um braço e, com a outra mão, agarrou Dun Dun pela gola.

— EI!

— Você estava indo embora.

— Eu estava perfeitamente...

Outra rajada.

Dun Dun levantou alguns centímetros do chão.

Maya puxou-o de volta.

— ...no controle.

— Claro.

— Para de falar “claro”.

Em poucos minutos, a Vila desapareceu atrás de uma cortina branca.

A neve ficou tão intensa que os caminhos começaram a sumir.

— Por aqui! — gritou Dun Dun.

— Tem certeza?

— Primeira coisa que eu disse hoje.

— Você disse várias coisas hoje.

— Então uma das primeiras.

Dun Dun avançou.

Maya foi atrás.

Andaram alguns minutos.

Viraram à esquerda.

Depois à direita.

Passaram por duas árvores.

Mais uma curva.

Dun Dun parou.

Diante deles estavam as mesmas duas árvores.

Maya olhou para ele.

Dun Dun olhou para as árvores.

— Elas podem ser parecidas.

Maya apontou para uma delas.

Havia uma fita vermelha presa num galho.

Dun Dun tinha colocado aquela fita ali alguns minutos antes.

— Muito parecidas — disse Maya.

— Eu estava testando você.

— Claro.

— MAYA!

Ela riu.

Outro trovão ecoou pelas montanhas.

Dessa vez, bem mais perto.

— Precisamos sair da parte aberta — disse Maya.

Dun Dun concordou.

Os dois seguiram em direção à floresta.

As árvores cortavam parte do vento, mas a neve continuava caindo rapidamente.

Foi quando ouviram um estalo.

CRAAAC!

— Corre! — gritou Dun Dun.

Um galho enorme despencou atrás deles.

Maya largou as caixas e puxou Dun Dun.

O galho atingiu o chão.

Os dois ficaram imóveis.

— Você está bem? — perguntou Maya.

— Estou.

Dun Dun olhou para as caixas abandonadas.

— E elas?

Maya olhou.

Uma estava intacta.

A outra tinha desaparecido debaixo da neve.

— Depois.

Dun Dun pareceu prestes a reclamar.

Outro estalo veio da floresta.

— Depois — repetiu Maya.

Dessa vez ele não discutiu.

Mais adiante, encontraram um pequeno abrigo de madeira usado por quem trabalhava naquela região da Vila.

Dun Dun correu até a porta.

Empurrou.

Nada.

— Travou.

Maya chegou.

— Sai.

— Eu consigo.

Dun Dun empurrou novamente.

A porta não se mexeu.

— Dun Dun.

— Só um segundo.

Maya colocou a mão na porta.

Empurrou.

Nada.

Dun Dun olhou para ela.

— Ah.

Maya tentou outra vez.

A porta rangeu, mas continuou fechada.

Dun Dun cruzou os braços.

— Quer que eu diga “sai”?

Maya olhou para ele.

— Nem pense.

Ela apoiou os dois pés no chão e empurrou com toda a força.

A madeira estalou.

A porta continuou no lugar.

— Estranho — disse Maya.

Dun Dun se aproximou.

Examinou a lateral.

Depois se abaixou.

Havia neve acumulada até quase a metade da porta.

— Você está tentando empurrar a neve junto com a porta.

Maya olhou para baixo.

— Ah.

Dun Dun sorriu.

— Quer que eu diga “claro”?

— Nem pense.

Eles começaram a retirar a neve.

Dun Dun usava uma pequena pá encontrada junto ao abrigo.

Maya usava as próprias mãos.

Depois de alguns minutos, Dun Dun parou.

— Isso vai demorar.

Maya continuou.

— Então ajuda.

— Estou pensando.

— Pensa cavando.

Dun Dun voltou a cavar.

Foi quando percebeu alguma coisa.

O vento estava empurrando a neve de volta para o mesmo lugar.

Eles tiravam de um lado.

A tempestade devolvia.

Dun Dun observou as árvores.

Depois o abrigo.

Depois a direção do vento.

— Maya.

— Hum?

— Não tira a neve.

— O quê?

— Empurra para aquele lado.

— Mas a porta está aqui.

— Eu sei.

— Então por que...

— Confia em mim.

Maya parou.

— Isso geralmente termina mal.

— Só algumas vezes.

— Muitas vezes.

— Mas não todas.

Maya olhou para o monte de neve.

Depois para Dun Dun.

— Tá.

Em vez de tentar limpar a frente da porta, Maya começou a empurrar grandes blocos de neve para uma das laterais.

Dun Dun fazia uma pequena parede com eles.

— Mais alto! — gritou.

— Assim?

— Mais!

Maya colocou outro bloco.

Depois outro.

A parede improvisada começou a cortar o vento.

A neve deixou de voltar para a entrada.

Dun Dun apontou para a porta.

— Agora.

Maya empurrou.

A porta abriu.

— HA!

Dun Dun levantou os braços.

Uma rajada atravessou o espaço e encheu seu rosto de neve.

Maya entrou rindo.

— Entra, gênio.

Dentro do abrigo havia algumas mantas, ferramentas e uma pequena lanterna.

Dun Dun fechou a porta.

O barulho da tempestade diminuiu.

Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.

Maya sentou-se.

— Essa foi forte.

Dun Dun espiou pela pequena janela.

Quase não conseguia ver nada.

— Vai passar.

— Vai.

Silêncio.

Então Dun Dun ouviu alguma coisa.

Toc.

Toc.

Toc.

— Você ouviu?

— O quê?

Toc.

Toc.

Os dois ficaram atentos.

O som vinha de fora.

Dun Dun abriu um pouco a porta.

— Ei!

Nada.

— TEM ALGUÉM AÍ?

Só vento.

Toc.

Toc.

Maya levantou.

— Vem daquele lado.

Saíram novamente.

Protegidos pela parede improvisada, conseguiram avançar alguns metros.

O som ficou mais claro.

Toc.

Toc.

Dun Dun afastou a neve perto de um arbusto.

Encontrou madeira.

— Tem alguma coisa aqui!

Maya começou a retirar a neve.

Logo apareceu parte de um pequeno trenó de serviço.

Tombado.

Preso entre dois arbustos.

— Está vazio — disse Maya.

Dun Dun examinou as marcas no chão.

Havia pegadas.

Quase cobertas pela neve.

— Alguém estava aqui.

Os dois se entreolharam.

A brincadeira tinha acabado.

Dun Dun seguiu as marcas.

Maya vinha atrás.

— Elas estão desaparecendo!

— Eu sei!

— Consegue seguir?

Dun Dun se abaixou.

Olhou para uma marca.

Depois outra.

Mais à frente, nada.

Ele respirou fundo.

Olhou para as árvores.

Para a direção da neve.

Para o trenó.

— Se o trenó tombou ali...

Apontou.

— ...quem estava nele provavelmente tentou voltar para o caminho.

— Que não existe mais — disse Maya.

— Para nós.

Dun Dun apontou para uma fileira de pequenas pedras quase escondidas pela neve.

— Mas estava aqui.

Seguiram.

Alguns metros depois, ouviram uma voz.

— EI!

— AQUI! — gritou Dun Dun.

Encontraram um jovem elfo encolhido atrás de uma pedra grande.

Ele estava assustado, mas aparentemente bem.

— Minha perna ficou presa quando o trenó virou — explicou. — Consegui sair, mas não consigo andar direito.

Maya se abaixou.

— Deixa eu ver.

Ele mexeu o pé.

— Não parece quebrada — disse ela. — Mas você não vai voltar andando.

Dun Dun olhou para Maya.

Maya olhou para Dun Dun.

— Nem começa.

— Eu não falei nada.

— Você ia falar.

— Eu só ia sugerir que você carregasse ele.

Maya olhou para o caminho.

Depois para o elfo.

— Eu consigo.

Dun Dun balançou a cabeça.

— Até o abrigo.

— Até a Vila.

— Não.

Maya franziu a testa.

— Eu sou forte.

— Eu sei.

— Então?

Dun Dun apontou para a tempestade.

— E ela é maior.

Maya ficou em silêncio.

Eles voltaram ao trenó.

Uma das laterais estava presa debaixo de um tronco caído.

Maya segurou o tronco.

Fez força.

Ele se moveu alguns centímetros.

Parou.

Ela tentou novamente.

Nada.

— Mais uma vez — disse Maya.

Dun Dun observava.

— Espera.

— Eu consigo.

— Eu sei que consegue.

— Então deixa.

— Mas você não precisa levantar tudo.

Dun Dun pegou um pedaço comprido de madeira.

Colocou uma pedra embaixo.

Encaixou a ponta sob o tronco.

— Agora tenta.

Maya pressionou a madeira.

O tronco subiu.

Pouco.

Mas o suficiente.

Dun Dun puxou o trenó.

— CONSEGUI!

Maya soltou.

O tronco caiu novamente.

BUM!

Os dois se olharam.

— Viu? — disse Dun Dun.

Maya sorriu.

— Claro.

Dun Dun apontou para ela.

— Você fez de propósito.

— Fiz.

Eles colocaram o elfo machucado no trenó.

Dun Dun amarrou uma corda na frente.

Maya segurou atrás.

— Eu puxo — disse Maya.

— Nós puxamos.

— Eu sou mais forte.

— E eu sei o caminho.

— Você se perdeu faz meia hora.

— Aquilo foi antes.

— Antes de quê?

Dun Dun começou a andar.

— Antes de eu saber que estava perdido.

Maya riu.

E foram.

Quando o caminho subia, Maya fazia força.

Quando desaparecia sob a neve, Dun Dun procurava as marcas.

Quando o vento ficava forte, os dois paravam.

Quando um deles escorregava, o outro segurava.

Não foram rápidos.

Não foram elegantes.

E definitivamente não escolheram o caminho mais curto.

Mas chegaram ao abrigo.

Algum tempo depois, a tempestade começou a perder força.

O vento diminuiu.

A neve ficou mais leve.

A Vila reapareceu aos poucos entre as árvores.

Os três conseguiram seguir pelo caminho de volta.

Quando finalmente avistaram as primeiras construções, Dun Dun abriu os braços.

— Eu disse que conhecia todos os caminhos!

Maya parou.

— Você quer mesmo terminar o dia com essa frase?

Dun Dun pensou.

— Não.

Continuaram andando.

Depois de alguns passos, Maya perguntou:

— E as caixas?

Dun Dun parou.

Olhou para trás.

Muito longe, em algum lugar no meio da neve, estavam as duas caixas que ela havia largado.

— Ah.

Maya cruzou os braços.

— Primeira coisa amanhã.

Dun Dun apontou para o céu.

— Se aquela nuvem não voltar.

Maya começou a andar.

— Claro.

Dun Dun correu atrás dela.

— MAYA!

E os dois desapareceram pelo caminho enquanto os últimos flocos da tempestade caíam sobre a Vila.