Faltavam três dias para o Natal quando a professora colocou uma caixa sobre a mesa.
— Última atividade do ano.
A turma comemorou.
Até ela completar:
— Em duplas.
A comemoração diminuiu um pouco.
Dentro da caixa havia papéis com os nomes dos alunos.
Cada dupla deveria criar um enfeite para a pequena árvore de Natal que ficava na entrada da escola.
Quando Henrique abriu seu papel, leu:
CAIO.
Olhou para o outro lado da sala.
Caio sorriu.
Henrique não.
Ele queria fazer dupla com Pedro.
Na hora do recreio, Pedro apareceu com uma ideia.
— Troca o papel.
— Como?
— Pega outro.
— A professora vai saber.
Pedro deu de ombros.
— Fala que veio errado.
Henrique sabia que não tinha vindo errado.
Mesmo assim, quando ninguém estava olhando, devolveu o papel com o nome de Caio e pegou outro.
Abriu.
PEDRO.
— Funcionou.
Os dois riram.
Depois do recreio, a professora chamou:
— Caio?
— Aqui.
— Com quem você ficou?
Caio mostrou o papel.
HENRIQUE.
Henrique sentiu o estômago apertar.
A professora olhou a lista.
— Estranho. Henrique está com Pedro.
Pedro respondeu:
— Deve ter vindo errado.
Henrique ficou quieto.
A professora conferiu novamente.
— Então alguma coisa aconteceu com os papéis.
Caio olhou para Henrique.
Só por um instante.
Depois baixou os olhos.
— Tudo bem. Eu faço sozinho.
Naquela tarde, Henrique e Pedro começaram o enfeite.
Fizeram uma estrela com palitos de madeira.
Ficou torta.
Tentaram outra.
Ficou pior.
Henrique não conseguia parar de olhar para Caio na outra mesa.
Ele fazia sozinho um pequeno trenó de papelão.
Quando precisava segurar duas partes ao mesmo tempo, apoiava uma delas no estojo.
A professora passou e perguntou:
— Precisa de ajuda?
— Consigo.
Henrique abaixou a cabeça.
Pedro percebeu.
— Esquece isso.
Mas Henrique não conseguiu.
No dia seguinte, chegou mais cedo.
Caio já estava na sala.
Henrique parou diante da mesa dele.
— O papel não veio errado.
Caio continuou mexendo no trenó.
— Eu sei.
Henrique não esperava aquela resposta.
— Sabe?
— Você fez uma cara quando tirou meu nome.
Henrique ficou sem saber onde colocar as mãos.
— Eu queria fazer com o Pedro.
— Eu percebi.
— Foi mal.
Caio deu de ombros.
— Tá.
Henrique olhou para o trenó.
Uma das laterais estava descolando.
— Posso ajudar?
— Agora?
— É.
Caio olhou para ele.
— Você não está fazendo a estrela?
— Estou.
Henrique respirou fundo.
— Mas primeiro eu tenho que contar para a professora.
Henrique contou.
Não colocou a culpa em Pedro.
Não disse que tinha sido brincadeira.
Disse apenas:
— Eu troquei os papéis porque não queria fazer dupla com o Caio.
A professora não brigou na frente da turma.
Só perguntou:
— E agora?
Henrique olhou para Caio.
— Agora eu queria consertar.
A professora respondeu:
— Então começa.
Naquela manhã, Henrique terminou a atividade com Caio.
O trenó ganhou duas laterais firmes, barbante vermelho e quatro pequenas rodas que quase ficaram do mesmo tamanho.
Quase.
Depois, Henrique voltou para ajudar Pedro com a estrela.
No fim do dia, os dois enfeites foram para a árvore.
O trenó ficou um pouco inclinado.
A estrela continuou torta.
Caio olhou para ela.
— Essa estrela está horrível.
Henrique começou a rir.
— Eu sei.
— Dá para consertar?
Henrique examinou.
— Acho que não.
Caio sorriu.
— Então deixa.
No último dia de aula, Henrique passou pela árvore antes de ir embora.
A estrela torta estava lá.
O trenó também.
Ele tinha errado.
Pedir desculpas não apagava isso.
Também não fazia Caio esquecer imediatamente como havia se sentido.
Mas Henrique tinha descoberto uma coisa importante antes daquele Natal:
nem todo erro pode ser desfeito.
Mesmo assim, enquanto ainda houver alguma coisa que possamos fazer depois dele,
ainda dá para consertar.

