Sempre Cabe Mais Um

NATAL + CONFRATERNIZAÇÃO + ACOLHIMENTO + AMOR AO PRÓXIMO

Imagem oficial da história Sempre Cabe Mais Um

Na casa de Laura, a ceia de Natal começava muito antes da noite.

A mãe avisava:

— Ninguém mexe no pudim.

O pai respondia:

— Então por que ele já está na geladeira?

A avó chegava com duas travessas, mesmo depois de prometer que levaria uma.

E os tios começavam a arrumar as mesas.

Laura recebeu uma missão:

contar as cadeiras.

Contou dezesseis.

Depois dezessete.

Depois dezesseis de novo.

— Vocês precisam parar de mudar de lugar!

Ninguém ouviu.

No fim da tarde, Laura foi com o pai comprar gelo.

Na volta, encontraram Seu Antônio no portão da casa ao lado.

— Feliz Natal! — disse Laura.

— Feliz Natal para vocês.

Laura perguntou:

— O senhor vai passar com seus filhos?

Seu Antônio balançou a cabeça.

— Este ano não. Eles moram longe e não conseguiram vir.

Laura sabia que Dona Lúcia, esposa dele, havia morrido no ano anterior.

— Então vai passar sozinho?

O pai olhou para Laura.

Seu Antônio sorriu.

— Vou fazer alguma coisa para comer. Não se preocupe comigo.

Laura continuou pensando naquilo até entrar em casa.

Na cozinha, todo mundo corria de um lado para o outro.

— Mãe, posso levar um prato para o Seu Antônio?

— Claro.

A avó ouviu.

— Faz um prato bonito.

Laura olhou para a mesa.

Depois para as cadeiras.

— Mas por que a gente leva a ceia até ele?

A mãe parou.

— Como assim?

— Por que ele não vem comer aqui?

Uma tia olhou para a mesa.

— Acho que não cabe mais ninguém.

Laura respondeu:

— A gente aperta.

Pouco depois, ela voltou com o pai até a casa do vizinho.

Seu Antônio abriu a porta.

— Aconteceu alguma coisa?

Laura respondeu:

— Aconteceu.

Ele ficou preocupado.

— O quê?

— Está faltando uma pessoa lá em casa.

O pai explicou o convite.

Seu Antônio agradeceu.

— Não quero atrapalhar o Natal da família de vocês.

Laura respondeu:

— Mas o senhor não vai atrapalhar.

— Vocês estão com a família.

Laura pensou por um instante.

— Então hoje o senhor fica com a nossa.

Seu Antônio sorriu.

— Só um pouquinho.

Quando chegaram, ninguém fez anúncio.

Ninguém aplaudiu.

A avó apenas olhou para ele e disse:

— Antônio! Ainda bem. Prova isso aqui.

E colocou farofa no prato dele antes que pudesse responder.

Uma cadeira apareceu entre o pai de Laura e um dos tios.

Todos se apertaram um pouco.

Mais tarde chegou outra pessoa.

Um tio olhou para a mesa.

— Agora não cabe mais ninguém.

Laura respondeu:

— Cabe.

— Onde?

Ela empurrou a própria cadeira alguns centímetros para o lado.

— Assim.

Todo mundo começou a rir.

Durante a noite, Seu Antônio contou histórias para as crianças, ajudou o pai de Laura a escolher músicas e discutiu futebol com um dos tios.

Também repetiu o pudim.

A mãe de Laura cochichou:

— Ele repetiu duas vezes.

Laura olhou para o próprio prato.

— Eu também repetiria.

Mais tarde, viu Seu Antônio rindo no meio da conversa.

Olhou para as cadeiras apertadas ao redor da mesa.

De manhã, sua missão tinha sido descobrir quantas pessoas cabiam ali.

Agora sabia que tinha contado errado.

Porque, naquela noite de Natal, Laura descobriu uma coisa:

quando alguém está sozinho e existe espaço para acolher,

sempre cabe mais um.