Naquela manhã, Marina entrou na cozinha enrolada em um cobertor.
— Está muito frio.
A mãe colocou uma caneca quente sobre a mesa.
Pela janela, Marina viu um trabalhador da limpeza passando pela rua.
Ele estava agasalhado, mas continuava trabalhando enquanto todo mundo tentava escapar do frio.
Marina ficou olhando.
— Mãe...
— Oi?
— Quando eu fico com frio, eu entro em casa.
— Sim.
— E quem não pode entrar?
A mãe também olhou pela janela.
Naquela tarde, Marina teve uma ideia.
Foi até o armário e começou a separar casacos que a família não usava mais.
Encontrou um que estava pequeno para ela.
Outro que o pai não usava havia muito tempo.
E um terceiro com o zíper quebrado.
Colocou todos sobre a cama.
A mãe pegou o casaco com o zíper estragado.
— Você usaria assim?
Marina olhou.
— Não.
— Então por que outra pessoa deveria usar?
Marina pegou o casaco de volta.
— A gente pode consertar.
Foi o que fizeram.
Separaram.
Lavaram.
Consertaram.
Marina começou a perceber que ajudar alguém não significava simplesmente entregar aquilo que não queria mais.
No dia seguinte, contou a ideia na escola.
Uma caixa apareceu perto da entrada para receber roupas de frio.
No começo chegaram casacos e blusas.
Depois apareceu uma sandália.
Um brinquedo quebrado.
Uma bolsa sem alça.
Marina lembrou do casaco.
A turma refez o aviso da caixa:
“ROUPAS E ITENS PARA O FRIO.”
E acrescentou:
“SE VOCÊ NÃO USARIA, NÃO DOE SEM CONSERTAR.”
A ideia cresceu.
A avó de Marina costurou botões.
O pai ajudou a trocar zíperes.
Uma lavanderia do bairro colaborou com algumas peças.
Uma padaria decidiu oferecer café e leite quente à noite para trabalhadores que continuavam circulando pela região.
Marina foi conhecer a ação com os pais.
Passavam por ali porteiros, entregadores, motoristas, seguranças e trabalhadores da limpeza.
Uma mulher saiu usando um dos casacos consertados.
Pouco depois, entrou o trabalhador que Marina havia visto pela janela naquela primeira manhã.
Ele tomou uma bebida quente e recebeu um par de luvas.
O pai perguntou baixinho:
— Você vai falar com ele?
Marina olhou.
— Falar o quê?
O pai sorriu.
Não precisava.
No caminho para casa, Marina perguntou:
— O frio vai continuar?
— Vai.
— Então a gente não resolveu o frio.
— Não.
Marina pensou.
— Mas para algumas pessoas ficou menos frio.
E naquela semana o inverno continuou frio.
Só ficou um pouco mais quente para algumas pessoas.

